quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Amar

Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal,
senãorodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor,
ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto,o que é
entrega ou adoração expectante,e amar o inóspito, o cru,um vaso sem flor,
um chão de ferro,e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma avede rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor a procura medrosa,paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor,e na secura nossaamar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.